Em Resumo (TL;DR)
A franquia e o descoberto são dois elementos-chave das apólices profissionais que determinam a porção do dano que fica a cargo do segurado, influenciando diretamente o custo do prémio e a eficácia da cobertura.
Estes dois termos definem a parte do dano que fica a cargo do segurado, influenciando tanto o prémio anual como a cobertura efetiva em caso de sinistro.
Compreender como funcionam é essencial para avaliar corretamente o custo e a cobertura do seu seguro, escolhendo a melhor solução para si.
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No mundo dos profissionais liberais e das empresas, subscrever uma apólice de Responsabilidade Civil profissional não é apenas uma obrigação legal para muitas categorias, mas um verdadeiro escudo de proteção do seu património. No entanto, para transformar este instrumento num aliado eficaz, é fundamental compreender cada uma das suas cláusulas, especialmente aquelas que, à primeira vista, podem parecer complexas: a franquia e o descoberto. Estes termos, frequentemente usados como sinónimos, escondem na realidade mecanismos muito diferentes que afetam diretamente o montante da indemnização e o custo do prémio do seguro. Compreender a sua função é o primeiro passo para uma escolha consciente e para evitar surpresas desagradáveis precisamente no momento de necessidade.
Este artigo propõe-se a esclarecer, explicando de forma simples e direta o que são a franquia e o descoberto, como funcionam e quais são as suas diferenças substanciais. Analisaremos exemplos práticos e forneceremos conselhos úteis para ajudar cada profissional a avaliar a apólice mais adequada às suas necessidades, equilibrando da melhor forma custos e benefícios. O objetivo é transformar um emaranhado de termos técnicos num conhecimento claro e aplicável, para proteger a sua atividade com plena consciência.

O Contexto Segurador: Tradição e Inovação no Mercado Europeu
O mercado segurador europeu, e em particular o italiano, é o resultado de uma longa evolução que tem as suas raízes numa cultura mediterrânica frequentemente orientada para a prudência e a gestão familiar do risco. Tradicionalmente, a abordagem à proteção baseava-se em garantias sólidas e testadas, concebidas para profissões históricas e riscos bem definidos. Este modelo, embora fiável, colide hoje com um mundo do trabalho em contínua transformação, caracterizado pelo surgimento de novas figuras profissionais, como os consultores digitais e os freelancers, e por riscos cada vez mais imateriais, como os ligados à segurança informática.
Neste cenário, a inovação desempenha um papel crucial. As companhias de seguros são chamadas a superar os velhos esquemas para oferecer soluções flexíveis e personalizadas. A franquia e o descoberto tornam-se assim instrumentos não só para conter os custos, mas também para moldar as apólices às reais necessidades dos novos profissionais. O desafio é equilibrar a solidez da tradição com o dinamismo exigido pela inovação, criando produtos que sejam ao mesmo tempo compreensíveis, acessíveis e capazes de responder a um panorama de riscos em constante mudança, protegendo eficazmente o trabalho e a criatividade de cada profissional.
A Franquia: A Sua Primeira Contribuição para o Risco
A franquia representa uma das cláusulas mais comuns e importantes numa apólice de seguro. Compreendê-la a fundo é essencial para avaliar corretamente a cobertura oferecida e o seu envolvimento económico em caso de sinistro.
O que é a Franquia em Palavras Simples?
A franquia é uma quantia fixa, estabelecida no contrato de seguro, que fica a cargo do segurado em caso de sinistro. Na prática, é a parte do dano que a companhia de seguros não reembolsa. Podemos imaginá-la como uma espécie de “quota de participação” no dano. Se um profissional causar um dano a um cliente no valor de 5.000 euros e a sua apólice tiver uma franquia de 500 euros, a seguradora indemnizará 4.500 euros, enquanto os restantes 500 euros ficarão a cargo do próprio profissional. Se o dano fosse inferior à franquia, por exemplo 300 euros, o custo total da indemnização seria da responsabilidade do segurado.
Tipos de Franquia: Absoluta e Relativa
Existem principalmente dois tipos de franquia. A franquia absoluta é a mais difundida nas apólices profissionais: o montante estabelecido é sempre deduzido da indemnização devida pela companhia. Se o dano for de 2.000 euros e a franquia for de 500 euros, a companhia paga 1.500 euros. A franquia relativa, menos comum neste âmbito, funciona de modo diferente: se o montante do dano for inferior ao limiar da franquia, o segurado paga o valor total; se, pelo contrário, o dano ultrapassar esse limiar, é a companhia que cobre o custo total, sem deduzir nada. Embora possa parecer mais vantajosa, as apólices com franquia relativa tendem a ter um custo maior.
Porque Existe a Franquia?
A franquia tem um duplo propósito. Em primeiro lugar, serve para responsabilizar o segurado, incentivando-o a adotar comportamentos prudentes para evitar sinistros de pequena gravidade. Saber que terá de contribuir economicamente leva a uma maior atenção no desempenho da sua atividade. Em segundo lugar, permite às companhias de seguros conter os custos, excluindo da gestão todos os pequenos sinistros cujo custo administrativo superaria o montante do próprio dano. Esta redução de custos traduz-se, em princípio, num prémio de seguro mais baixo para o cliente.
O Descoberto: Uma Participação Percentual no Dano
A par da franquia, outra cláusula fundamental a conhecer é o descoberto. Embora o seu propósito seja semelhante, o seu funcionamento baseia-se num princípio diferente que modifica o impacto económico para o segurado.
O que é o Descoberto no Seguro?
O descoberto é uma cláusula que deixa a cargo do segurado uma parte do dano calculada em percentagem sobre o montante do próprio dano. Ao contrário da franquia, que é um valor fixo e predeterminado, o descoberto é um valor variável. O seu montante exato só pode ser conhecido depois de o sinistro ter ocorrido e o dano ter sido quantificado. Por exemplo, com um descoberto de 10% num sinistro de 10.000 euros, o segurado terá de cobrir 1.000 euros (10% do dano), enquanto a companhia de seguros indemnizará os restantes 9.000 euros.
Descoberto com Mínimo e Máximo
Como o descoberto é uma percentagem, o seu valor pode tornar-se muito elevado em caso de danos avultados. Por este motivo, os contratos de seguro preveem frequentemente limites mínimos e máximos. Uma cláusula poderia dizer: “descoberto de 10% com um mínimo de 500 euros e um máximo de 5.000 euros”. Isto significa que, independentemente do cálculo percentual, a quota a cargo do segurado nunca poderá ser inferior a 500 euros nem superior a 5.000 euros. Estes limites servem para tornar o desembolso para o segurado mais previsível e para equilibrar o risco entre as partes.
O Papel do Descoberto nas Apólices Profissionais
O descoberto é frequentemente utilizado para tipos de risco de alta frequência ou cuja magnitude é difícil de prever. A sua função principal é criar uma forte partilha do risco, assegurando que o profissional permanece diretamente envolvido na gestão do sinistro. Este mecanismo, conhecido como “ter a pele em jogo” (skin in the game), é um poderoso incentivo à prudência e à prevenção. Frequentemente, nas apólices profissionais, o descoberto encontra-se em combinação com uma franquia; nestes casos, geralmente aplica-se o valor que for mais alto entre os dois, em desfavor do segurado.
Franquia vs. Descoberto: Qual é a Diferença Fundamental?
Compreender a distinção entre franquia e descoberto é crucial para não confundir dois mecanismos que, embora partilhem o objetivo de repartir o risco, funcionam de maneiras muito diferentes. A sua aplicação determina de forma significativa o montante final da indemnização e a quota do dano que fica a cargo do profissional segurado.
A diferença essencial é simples: a franquia é um valor fixo, enquanto o descoberto é um valor variável, calculado em percentagem sobre o dano.
A franquia oferece a vantagem da previsibilidade. Desde a subscrição do contrato, o segurado sabe exatamente qual será a sua exposição económica máxima para cada sinistro que ultrapasse esse limiar. Isto torna-a fácil de compreender e de orçamentar. É um valor absoluto, expresso em euros (ex. 1.000 €). O descoberto, pelo contrário, introduz um elemento de incerteza, uma vez que o seu valor efetivo depende da magnitude do dano. Um dano pequeno resultará num descoberto pequeno, mas um dano avultado fará aumentar proporcionalmente a quota a cargo do segurado, embora frequentemente mitigada por limites mínimos e máximos.
O Impacto no Prémio do Seguro: Um Equilíbrio Delicado
A escolha entre diferentes opções de franquia e descoberto não é apenas uma questão de como será gerido um eventual sinistro, mas tem um impacto direto e imediato no custo da apólice. Existe uma relação inversa bem definida: a uma franquia ou a um descoberto mais altos corresponde, geralmente, um prémio de seguro mais baixo. Esta dinâmica permite uma certa personalização da apólice, mas exige uma avaliação estratégica cuidadosa por parte do profissional.
Aceitar uma franquia elevada pode parecer uma forma inteligente de poupar no custo anual do seguro. No entanto, esta escolha implica assumir um risco maior. O profissional deve perguntar-se: “Em caso de sinistro, serei capaz de suportar sem dificuldade o desembolso exigido pela franquia?”. Por outro lado, optar por uma franquia muito baixa ou nula garante uma maior tranquilidade, mas traduz-se num prémio mais oneroso. A decisão final depende de um delicado equilíbrio entre a própria propensão ao risco, a capacidade financeira e o nível de proteção desejado. É fundamental encontrar o compromisso certo, como na escolha de um capital seguro adequado, para não anular a eficácia da cobertura do seguro.
Como Escolher a Combinação Certa para a Sua Atividade
Selecionar a franquia e o descoberto ideais não é uma decisão a ser tomada de ânimo leve. Requer uma análise aprofundada da sua situação profissional e financeira. Uma escolha errada pode traduzir-se numa poupança irrisória no prémio em troca de uma exposição a riscos económicos significativos.
Análise do Risco Profissional
Cada profissão tem um perfil de risco único. Um arquiteto está exposto a reclamações por erros de projeto que podem ter consequências económicas enormes, enquanto um consultor de marketing pode enfrentar riscos ligados à violação de direitos de autor ou à difamação. É fundamental analisar a frequência e a potencial gravidade dos sinistros típicos do seu setor. Profissões com uma alta probabilidade de sinistros de pequeno valor podem beneficiar de uma franquia mais baixa, enquanto aquelas com riscos raros mas potencialmente catastróficos podem gerir melhor uma franquia mais alta para reduzir o prémio. É uma análise que exige especificidade, como a necessária para um RC Profissional para arquitetos e engenheiros.
Avaliação da Sua Capacidade Financeira
A pergunta-chave a fazer é: “Qual é o montante máximo que posso permitir-me pagar do meu bolso em caso de sinistro, sem colocar em risco a estabilidade financeira da minha atividade ou pessoal?”. Uma franquia de 5.000 euros pode ser sustentável para uma sociedade de advogados com um volume de negócios elevado, mas pode ser paralisante para um jovem freelancer. É importante ser honesto consigo mesmo e escolher um montante que represente uma despesa gerível. Lembre-se sempre que uma franquia demasiado alta, embora reduza o prémio, pode transformar a apólice num instrumento quase inútil para danos de média dimensão.
Ler Atentamente o Contrato
Antes de assinar qualquer apólice, é imperativo ler com a máxima atenção o Conjunto de Informações Pré-contratuais (que inclui o DIP, Documento de Informação sobre o Produto de Seguros). Este documento contém todos os detalhes sobre franquias, descobertos, capitais seguros, exclusões e condições operacionais. Não hesite em pedir esclarecimentos ao seu corretor ou consultor de seguros sobre qualquer ponto pouco claro. Um guia completo sobre RC profissional pode ser um excelente ponto de partida, mas a compreensão do seu contrato específico é a única forma de garantir uma proteção real e eficaz.
Conclusões

A franquia e o descoberto não são cláusulas a temer, mas sim instrumentos de personalização da sua apólice profissional. Longe de serem simples “armadilhas” contratuais, representam um mecanismo de partilha de risco entre o segurado e a companhia, com um impacto direto tanto no prémio como na gestão de um eventual sinistro. A franquia, com o seu valor fixo, oferece certeza e previsibilidade. O descoberto, baseado numa percentagem, liga a participação do segurado à magnitude do dano, promovendo uma maior prudência.
A chave para uma proteção eficaz reside na consciencialização. Compreender a fundo a diferença entre estes dois conceitos, analisar o seu próprio perfil de risco e avaliar realisticamente a sua capacidade financeira são passos imprescindíveis. Só através de uma escolha informada, apoiada por uma leitura atenta do contrato e pelo diálogo com um consultor experiente, um profissional pode transformar o seu seguro de um mero custo obrigatório num baluarte sólido e fiável para a proteção do seu futuro e da sua serenidade laboral.
Perguntas frequentes

A **franquia** é um valor *fixo* estabelecido no contrato que fica sempre a cargo do segurado. Se o dano for inferior ou igual a este valor, a seguradora não intervém. Se o dano for superior, a companhia paga apenas a diferença. O **descoberto**, por outro lado, é uma *percentagem* do dano que fica a cargo do segurado. O seu valor, portanto, não é fixo, mas varia com base na magnitude do dano e só é conhecido após a ocorrência do sinistro.
A escolha depende da sua propensão ao risco e das suas necessidades. Uma **franquia** oferece mais certeza: sabe exatamente qual será o seu desembolso em caso de sinistro. O objetivo da franquia é geralmente excluir os danos de pequeno valor da cobertura. O **descoberto**, por sua vez, envolve-o proporcionalmente em cada sinistro, incentivando uma maior prudência. Em geral, a presença de uma destas cláusulas permite baixar o custo do prémio do seguro.
Sim, por norma é assim. Ao aceitar uma franquia ou um descoberto mais elevados, assume uma parte maior do risco e, consequentemente, a companhia de seguros reduz o custo da apólice (o prémio). É uma forma de personalizar a cobertura com base no seu orçamento e na sua tolerância ao risco. Avalie cuidadosamente se a poupança no prémio justifica o potencial desembolso em caso de sinistro.
Sim, muitas apólices, incluindo as profissionais, preveem uma combinação de ambas as cláusulas. Frequentemente, a fórmula é “descoberto de 10% com um mínimo de 500 euros”. Neste caso, ao ocorrer um dano, calcula-se o valor do descoberto (a percentagem sobre o dano) e compara-se com o montante da franquia (o mínimo fixo). Será debitado ao segurado o montante que, entre os dois, for mais alto.
Sim, é possível subscrever apólices profissionais sem franquia nem descoberto. Esta opção oferece uma cobertura mais completa, uma vez que a companhia assume a totalidade da indemnização desde o primeiro euro, mas implica um prémio de seguro mais elevado. É uma escolha a considerar se a sua atividade apresenta um risco significativo de sinistros ou se prefere evitar despesas imprevistas a seu cargo em caso de pedido de indemnização.

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